agosto 15, 2003

O quisto e a crista

Paulo Portas é o ministro vivaço que Durão Barroso tem que aturar com vista a manter a coligação governamental PSD/PPD/CDS/PP.
Como ministro da Defesa, em frente aos militares e nas paradas, parece um galo de crista levantada e peito empinado, dir-se-ia que para intimidar o inimigo e sempre pronto a receber todas as medalhas por valentia e heroísmo. Na prática, tutelando uma instituição onde se exige a estabilidade, semeia a instabilidade por todos os lados, já tendo derrubado em menos de um ano dois chefes militares (dos nossos, não do inimigo), e metendo cunhas para a nomeação do responsável pela aquisição de armamento.

Mário Soares referiu-se-lhe como "um quisto que necessita de ser extirpado", traduzindo assim metaforicamente o que muita gente pensa (incluindo dentro da coligação e do próprio CDS). Mas um "chefe militar" não anda sozinho, e Portas tem a sua escolta (muitos chamam-lhe a sua corte, ou simplesmente "os garotos") bem montada. E logo essa corte saiu a terreiro em defesa do chefe, criticando a deselegância (outro diria a "falta de gentlemenship") e mostrando-se escandalizada (não me refiro a Helena Sacadura Cabral, que tem uma boa desculpa). No Expresso, José António Lima lembrou-nos os epítetos com que Paulo Portas mimoseou a multidão que atacou quando no Independente disparava sobre tudo o que se movia: para Leonor Beleza "a dignidade tinha dias", e "passou a ser detestável", Pacheco Pereira tem "o carácter sinistro dos pidezinhos amanuenses", Cavaco Silva "hipócrita", devia haver "quem mandasse criaturas da estirpe de Nogueira e Mendes de volta para as cavernas", Marcelo Rebelo de Sousa era "diabólico", Laborinho Lúcio "cínico", Miguel Cadilhe tinha "um torto e narcísico cérebro" e Durão Barroso era um "mentirolas" e conhecido por "não ser dado à sinceridade" (Santana Lopes escapou? como?).

Agora, com o regresso a Portugal dos restos mortais do tenente-coronel Maggiolo Gouveia, Portas sentiu de novo os arroubos da sua veia jornalística, alcandorando o militar português, que aderira à UDT (o partido timorense que em 11 de Agosto de 1975 deu um golpe e encorajou a invasão indonésia ) e que na confusão subsequente foi fusilado pela Fretilin, a nada menos que herói da luta anti-comunista, e lançando a suspeição sobre as forças portuguesas comandadas pelo general Lemos Pires.

O ministro da Defesa não se poupa a esforços para, se não por feitos, se distinguir por ditos, por mais ridículos ou exagerados que possam ser.
O que se passou em Timor em 1975 foi uma tragédia, que deu lugar a uma tragédia ainda maior durante os vinte e cinco anos subsequentes. Todos os intervenientes, portugueses e timorenses, cometeram erros, e na guerra civil e contra o invasor indonésio cometeram-se certamente muitos excessos. Timor hoje está independente e a encetar a difícil aprendizagem da governação e da construção de um país democrático, em paralelo com a reconciliação de todos os timorenses (a Fretilin encabeça o governo, e os antigos dirigentes das outras formações, como a UDT, têm os seus partidos, são deputados ou encontram-se em cargos importantes). Sem esquecer o passado, mas com a consciência de que constrír o futuro é sempre mais difícil.

Acho bem que os restos mortais de portugueses que perderam a vida naqueles anos conturbados regressem a Portugal, com homenagens ou não (e a homehagem a Maggiolo Gouveia é polémica em certos meios, por ter feito uma declaração em que abandonava o posto para que fora nomeado pelo governo português e a instituição a que pertencia), não me compete dizê-lo. Mas tal não deveria constituír motivo para um ministro vivaço se auto-promover e continuar a dar a impressão de que está a fazer algo de útil.

Publicado por acarranca em 02:28 PM | Comentários (0)

agosto 12, 2003

Manipulações

A propósito da cimeira de Cancun da Organização Mundial de Comércio, e da realização da cimeira alternativa de Larzac, José Manuel Fernandes continua a sua cruzada em prol das virtudes neoliberais, misturando verdades, meias verdades e manipulações.
Com o objectivo de desacreditar os movimentos sociais alternativos, JMF realça os seus aspectos mais negativos ou pitorescos, ignorando propositadamente os múltiplos debates, estudos, propostas, efectuados por pessoas cujas competências são indiscutíveis. Ignora igualmente que os movimentos sociais já obrigaram a inflexões significativas nas reuniões de Davos ou da OMC.

Não, para JMF os movimentos sociais são apenas José Bové ou os micro-grupos de "anarquistas" provocadores que nas manifestações conseguem, apesar do seu reduzido número, provocar distúrbios com a polícia e partir montras ou destruír viaturas. Todos os órgãos de comunicação sérios (Público incluído, obviamente), no corpo das notícias, atestam o seu carácter ultraminoritário e a sua aliança objectiva com as brigadas anti-motim, num bailado bem ensaiado de provoca-responde. Mas nos títulos das notícias e nos editoriais é o que se vê.

JMF fala da transmutação dos movimentos sociais de anti-globalização em alterglobalização. Apesar de os movimentos sociais expressarem uma grande diversidade de posições (essa diversidade é simultaneamente uma das suas forças e uma das suas fraquezas), JMF sabe perfeitamente que nunca as correntes maioritárias foram contra a globalização (isso infere-se das declarações e textos publicados desde o início do movimento) e que o rótulo de anti-globalização, podendo eventualmente ter sido utilizado por algum participante, foi sobretudo grafado e publicitado pelos meios de comunicação e por alguns políticos. Um dos principais mivimentos integrantes é a ATTAC, cuja proposta mais conhecida é a implementação da Taxa Tobin. Não é preciso ser um génio sobredotado para perceber que os seus efeitos (positivos ou não, essa é outra questão) só se podem fazer sentir... com a globalização dos mercados financeiros!

Em seguida, JMF fala (com razão) dos malefícios do proteccionismo dos países ricos e dos seus escandalosos subsídios à produção agrícola, que na prática inviabilizam a colocação dos produtos dos países pobres no mercado mundial, para em seguida dar a entender que será nas reuniões da OMC que essa questão será resolvida. Sejamos sérios, se não houver uma forte pressão internacional, em particular da opinião pública dos países ricos, essa questão nunca será resolvida. A OMC pode ser o forum indicado para legislar sobre essa e outras questões, mas se não houver pressão só mudará alguma coisa se tudo continuar na mesma. E é falso que os movimentos por uma globalização diferente sejam contra a resolução dessa questão. Bové pode sê-lo, mas a identificação entre Bové e a multitude de movimentos sociais só existe na cabeça de JMF e quejandos ("Os milhares de seguidores deste herói de bigode à Astérix ...", JMF dixit, e dixit tudo).
Já agora, JMF acredita mesmo que a questão dos organismos geneticamente modificados está resolvida? Que a adopção maciça de OGM pelos países pobres não terá fortes emplicações sobre a saúde dos seus povos e sobre o seu ambiente natural, sobre a biodiversidade, para além de os colocar autenticamente na mão das grandes multinacionais do ramo? Tanto quanto sei, mesmo para os especialistas essa é uma questão em aberto.
JMF tem razão numa coisa: Orwell explicou de facto tudo sobre como a manipulação das palavras serve a manipulação dos espíritos, este e outros editoriais são provas cabais disso. Já agora, não foi no "seu Big Brother" como diz, mas sim no "seu 1984".

Publicado por acarranca em 12:32 PM | Comentários (0)

Pergunta ao Primeiro-ministro de Portugal

O senhor Primeiro-ministro afirmou ao povo português que lhe tinham sido apresentadas pelos governos dos Estados Unidos da América e do Reino Unido provas inequívocas da posse pelo anterior regime iraquiano de armas de destruição maciça, e de ligações à rede terrorista al Qaida, entre outros argumentos que justificariam a agressão militar desencadeada pelas forças armadas da coligação americano-britânica.
O senhor afirmou-o sem corar e sem que a voz lhe tremesse, assim como afirmou que a cimeira das Lajes seria a cimeira da paz, quando na realidade o seu resultado foi a apresentação de um ultimato ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Como o senhor sabe, pelo menos através dos mais diversos órgãos de informação, mas também através de declarações dos responsáveis americanos e britânicos, e após mais de dois meses do derrube do regime de Saddam Hussein e de ocupação efectiva do Iraque, nenhuma prova dessas alegações foi encontrada. Pelo contrário, o que se encontrou foi um regime e umas forças armadas num estado de total fraqueza e inoperacionalidade, tal como já tinha sido previsto por diversos observadores independentes.

Como também não ignora, os governos americano e britânico vêm-se agora confrontados com a obrigação de prestar contas das falsidades então afirmadas às suas opiniões públicas e aos tribunais. Mais recentemente, soube-se que igualmente o governo espanhol foi acusado de ter pressionado as suas forças armadas para darem cobertura àquelas alegações.

Neste sentido, gostaria, enquanto simples cidadão, que informasse a opinião pública portuguesa, quais foram essas provas inequívocas que lhe foram apresentadas e porque é que elas ainda não foram confirmadas no terreno, ou, em alternativa, se está disposto a apresentar desculpas por ter mentido aos cidadãos que o elegeram, mesmo alegando que o fez porque foi demasiado crédulo em relação aos nossos aliados, e baseado na premissa de que os governos de países democráticos não mentem aos seus cidadãos e aos seus aliados.

Publicado por acarranca em 10:00 AM | Comentários (0)

agosto 06, 2003

João Pulido Valente

Só hoje soube da morte de João Pulido Valente, médico, militante e depois dissidente do PCP, um dos fundadores da primeira organização portuguesa das que se viriam depois a chamar marxistas-leninistas-maoístas, o CMLP, Comitê Marxista-Leninista Português, que depois do 25 de Abril desaguou no PCP(R) e na UDP.

Tendo cruzado os mesmos caminhos ideológicos, e por muito afastado que hoje esteja da submissão a qualquer teoria e praxis sujeita a pseudo-determinismos históricos que justificam o caminho com a bondade do destino, mas continuando "crente" numa esquerda que lute e proponha respostas aos problemas que o mundo nos coloca, não resisto a citar a declaração ditada por JPV a uma amiga pouco antes de morrer, a título de epitáfio:

"Eu, João Pulido Valente, informo os meus Amigos que morri hoje, -/---/---, pela tardinha. Convivi com ideias, mulheres, tabaco e álcool. Contraí cadeia, síflis, cancro e ressacas. Não estou arrependido. Julgo ter pago o preço justo por ter vivido. Quando eu morrer não quero choro nem velas, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela: Liberdade."

Publicado por acarranca em 12:31 PM | Comentários (0)

agosto 05, 2003

Oportunidade

Quando uma tragédia como esta (os incêndios florestais, no caso) se abate sobre o país, além das suas lamentáveis consequências directas e indirectas, há como que um efeito anestésico em relação a outros problemas.

Para o bem e para o mal, poucas pessoas se terão preocupado por estes dias (ou sequer pensado) em outras questões importantes ou apenas mediáticas. O(s) caso(s) de pedofilia passaram para plano secundário: as vítimas, os arguidos, os procuradores e juízes. As questões relativas aos direitos de vítimas e arguidos. O segredo de justiça e as suas violações programadas. As escutas telefónicas com rédea solta. As prisões preventivas medievais ou surrealistas. Existe ou não uma rede pedófila, se sim, fazem dela parte os poderosos ou apenas os conhecidos?
O estado da economia, a recessão e o desemprego. A sensibilidade castrense do Ministro da Defesa. Etc.

Quando a intensidade dos incêndios diminuir, estes e outros assuntos hão-de voltar. Haverá grandes novidades na rentrée?

Publicado por acarranca em 11:51 PM | Comentários (0)

Sob o signo do fogo

Este blog é iniciado numa altura trágica e confusa. Portugal tem sido assolado nestes últimos dias por incêndios florestais de uma magnitude e consequências que mesmo os mais velhos não recordam.

A combinação de temperaturas muito elevadas e de humidades baixíssimas adicionou-se ao desleixo na limpeza das matas, ao inexistente ordenamento do território, aos cortes orçamentais cegos que deixam as matas sem fiscalização e os bombeiros sem meios em terra e no ar e a pirómanos organizados ou não.

Como resultado, florestas inteiras (lembram-se do "petróleo Verde" de há uns anos atrás?) desaparecem, populações ficam na miséria (na melhor das hipóteses, pois na pior tiveram que lutar pela vida), reservas biológicas que constituiam uma riqueza do país em risco de extinção, tudo aquilo que, comodamente sentados em frente à televisão, pudemos observar.

Não, a natureza não é sempre nossa amiga. Nem inimiga. Mas em qualquer dos casos temos que saber lidar com ela. Pode-nos proporcionar beleza e diversidade, pode-nos proporcionar riqueza, mas esses dois valores têm que estar em equilíbrio.

Publicado por acarranca em 11:30 PM | Comentários (0)