Interessante e previsível a lenta mas segura inflexão da administração Bush a respeito do Iraque. Após uma das mais escandalosas manipulações de informação a nível internacional, com "provas" seguras de tudo o que afirmavam, com um desprezo total por todos, países e pessoas, que tiveram a ousadia de pensar pela própria cabeça, assim como pelo direito e pelas instituições internacionais, recorrendo à chantagem ou ao pagamento de chorudos dólares para garantir apoios, usando e abusando do seu estatuto de única hiper-potência a nível mundial, o resultado é o que se vê. No Iraque o regime era dos mais odiosos, mas nele não penetravam as correntes terroristas islamistas fundamentalistas e teocráticas. Hoje tudo quanto é grupo terrorista se desloca para lá, pois em termos de insegurança e terrorismo é o que mais se aproxima de um verdadeiro mercado livre, à mercê dos mais industriosos e empreendedores, e com largas franjas de população descontente com a ocupação do seu país e portanto preparada e receptiva para ser recrutada. Saddam continua a monte (tal como Ben Laden e o mulah Omar). A Turquia, o mais laico dos países de maioria muçulmana, sofre com o terrorismo global e vê afectado o delicado equilíbrio entre as correntes laicas e democráticas e as mais radicais. Quando Bush diz que o mundo ficou mais seguro (após a ocupação de Bagdad) tal soou como a mais amarga das ironias: é que nem para ele ficou mais seguro, quanto mais para "o mundo"!
A grande potência apostou tudo na invasão de um país que, como hoje é reconhecido, não só não representava um perigo para os Estados Unidos como não teve nada a ver com o 11 de Setembro de 2001. E acreditou (será que acreditou? é que a ingenuidade e o auto-convencimento têm limites) que seriam recebidos como libertadores, e a democracia seguiria logo atrás dos tanques, e os iraquianos seriam mais um povo eternamente gratos aos EUA. Lágrimas de emoção varreram as faces dos crédulos, lembrando-se de outras libertações e não atentando nas diferenças entre elas.
Seja como for, o Iraque virou um pantanal, o famoso "roadmap" para a Palestina está esquecido num canto, o terrorismo continua a levantar a cabeça e a fazer vítimas inocentes. E ainda por cima 2004 é ano de eleições presidenciais nos EUA, pelo que falar para um eleitorado a contar mortos e feridos não é a melhor das perspectivas. Entra o plano B: vamos voltar a dar a impressão de que somos multilaterais, meter mais países ao barulho, desde que nos mantenhamos no controlo da situação. Não há tempo para fazer constiuições e preparar a transição democrática, passa-se já no próximo ano as responsabilidades governativas para os iraquianos, ou pelo menos que assim pareça. E, milagre dos milagres, as nossas forças transmutam-se de ocupantes a forças convidadas! Um verdadeiro ovo de Colombo. E os outros países não têm outro remédio senão alinhar, porque mesmo que tenham sido contra a guerra, a salsada que nós criámos agora já os afecta mesmo!
Ao longo da história muitas vezes muitos países ou povos tiveram de aceitar factos consumados. Aceitá-los e trabalhar a partir daí, quer porque não são reversíveis, quer porque a reversibilidade acarreta riscos muito maiores. É o caso. Mas não deixa de ser uma vergonha, e que seja sobretudo uma lição.
Se não tivessemos lido e ouvido muito pior durante a fase que antecedeu a guerra anglo-americana contra o Iraque, ainda ficaríamos espantados. Mas a única surpresa, para os mais ingénuos, é a falta de vergonha que revelam certos editorialistas, cujos artigos, lidos isoladamente, nos poderiam levar a pensar que eles são capazes do melhor e do pior.
Vem isto a propósito do editorial de José Manuel Fernandes no Público de hoje, 5 de Novembro, sob o nietscheziano título "Assim falou Aziz".
O Aziz em questão é o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros e ex vice-Primeiro Ministro do regime de Saddam Hussein, que se encontra prisioneiro das forças ocupantes e sujeito a interrogatórios, sem que se saiba qual o seu estatuto exacto. E o que falou Aziz que tanto escandalizou JMF? Pois que Saddam teria recebido da França e da Rússia garantias de que inviabilizariam/impediriam a guerra, no limite através de vetos no Conselho de Segurança. JMF considera a notícia "altamente perturbadora" (a guerra do Iraque tem posto à prova a extrema sensibilidade de JMF, como nos lembramos da sua lágrima furtiva enquanto os americanos encenavam, com os seus tanques e uns quantos figurantes iraquianos, o "25 de Abril iraquiano"...).
É um facto novo que a França e a Rússia, entre muitos outros países, tentaram evitar a aventura anglo-americana? Claro que não. Podiam esses (ou outros) países garantir a alguém que conseguiam evitar a guerra, utilizando expedientes legais no Conselho de Segurança? Claro que não, podiam quando muito tentar, a guerra já estava decidida há muito tempo, fossem quais fossem as resoluções do Conselho de Segurança, a sua preparação já se tinha iniciado uma década antes.
Hoje são já aceites pela maioria como evidências os argumentos dos que denunciavam as mentiras e as hipocrisias que americanos e britânicos procuravam apresentar como factos que justificavam a invasão e ocupação do Iraque (armas de destruição maciça, ligações à al Qaeda, implicação no 11 de Setembro de 2001, etc). Em maior ou menor grau, Bush Jr. e Blair vão tendo de se defrontar com as suas opiniões públicas, parlamentos e tribunais por terem mentido aos seus povos e instituições. Não que qualquer deles já tenha admitido que mentiu, assistindo-se antes a contra-ataques de propaganda e a chutar as culpas para acessores e serviços de informações. Por falar nisso, o primeiro-ministro de Portugal também ainda não se retratou, ele que garantiu aos portugueses que tinha claramente visto as provas "demolidoras" e assegurou a logística da hipocritamente chamada cimeira da paz nos Açores, de onde saiu o ultimato ao Conselho de Segurança das Nações Unidas dois dias antes do início da guerra.
Mas estes factos não são altamente perturbadores para JMF (pois se ele foi um dos seus principais porta-vozes em Portugal!). O que é perturbador é o facto de dois países terem tentado evitar a guerra. JMF prefere dizer que esses dois estados "confortaram" o ditador.