Importante ler o artigo de Vital Moreira publicado hoje no Público e subordinado ao título "Está a Europa tomada de novo pelo Anti-semitismo?" Aí, VM desmonta as interpretações abusivas de quem vê atitudes racistas onde apenas há posições políticas, dirigidas não contra um povo ou uma religião mas contra um governo, ou contra certas posições, orientações e actos desse governo. VM cita um artigo recente de Edgar Morin no Le Mnde intitulado "Anti-semitismo, antijudaísmo e anti-israelismo", em que Morin mostra como é inaceitável a amálgama dos três conceitos, cada um com a sua história e motivações específicas, sendo o primeiro manifestamente racista e podendo englobar os outros dois, mas que a mais elementar lógica (e, acrescento eu, inúmeros factos) demonstra que a implicação inversa só por ignorância ou má-fé pode ser considerada credível.
Claro que quem segue essa lógica falaciosa e perversa tem objectivos muito claros, como sejam o desarmar e desacreditar a crítica ao executivo de Sharon. A mesma lógica, afinal, que leva a rotular de anti-americanos os que criticam Bush, de anti-portugueses os que criticam decisões de Durão, etc. etc. Mas esses rouladores não sabem mais do que isso? Alguns não, claro. Mas o que conhecem mais do que a lógica dos simples só se podem considerar como actuando de má-fé.
Que G.W. Bush representava uma ameaça global pela sua irresponsável e imperial política internacional, lidando mal com uma ameaça real (o terrorismo internacional), era já facto conhecido de muita gente. A novidade é que essa ameaça se faz sentir mesmo quando Bush lida com a política interna dos Estados Unidos. Tal sucede com os sucessivos orçamentos desde a sua tomada de posse, em que conseguiu a proeza de transformar o enorme superávite legado por Clinton numa sucessão de déficites que os americanos não viam desde L.B. Johnsson. Para não dar pretextos aos nossos guardiães sempre prontos a "responder" com o habitual argumento do anti-americanismo, demos a palavra a eminentes americanos escrevendo em insuspeitos jornais americanos.
Por exemplo, Nicholas D. Kristof, no New York Times de hoje.
"Se formos sérios na oposição às ameaças ao nosso modo de vida, não temos de as procurar nas cavernas do leste do Afganistão. Podemos encontrar uma séria ameaça na ala oeste da Casa Branca, onde a administração Bush desenha a sua política fiscal." "Se o senhor Bush fosse um conservador genuíno, ele cortaria nos impostos, mas cortaria igualmente na despesa para equilibrar. Se ele fosse um honesto liberal, aumentaria a despesa, assim como os impostos. Em vez disso, o presidente está-nos a convidar para uma noite de farra na cidade e deixando-nos - e aos nossos filhos - com a conta para pagar." Após citar os exemplos latino-americano e japonês, que cobriu como jornalista e cronista, Kristof recorda um dos discursos de campanha de Bush em 2000, em que este fala do uso a dar ao superavite de Clinton: "O meu plano é reservar uma parte do excedente projectado, um pouco mais de um milhão de milhões dos quatro milhões de milhões, e dá-la às pessoas que pagam as contas", para concluír que sob a administração Bush os excedentes simplesmente se evaporaram. E recorda que o Fundo Monetário Internacional é que avisou que os déficites orçamental e externo dos Estados Unidos são uma ameaça à economia global.
Só para concluír, Kristof acaba por reconhecer que tem saudades de Clinton, apesar das suas notórias falhas de carácter. Citação final: "O senhor Clinton mentiu sobre sexo e era fraco em outros aspectos, mas estava disposto a dizer à América a desagradável verdade sobre o comércio externo e sobre os orçamentos. Só desejo que o senhor Bush e os seus concorrentes democratas sejam tão honestos com o povo americano como o senhor Clinton foi."