Não resisto a citar partes de um artigo de Bob Herbert (The wrong war) no NYT de hoje, sobre o livro do ex-responsável anti-terrorista da Casa Branca, Richar Clarke.
"The most compelling aspects of Richard Clarke's take on the world have less to do with the question of whether the Bush administration could somehow have prevented the Sept. 11 attacks and much more with the administration's folly of responding to the attacks by launching a war on Iraq."
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"Mr. Clarke, President Bush's former counterterrorism chief, writes in his book, "Against All Enemies," that despite clear evidence the attacks had been the work of Osama bin Laden and Al Qaeda, top administration officials focused almost immediately on the object of their obsession, Iraq.
He remembers taking a short break for a bite to eat and a shower, then returning to the White House very early on the morning of Sept. 12. He writes:
"I expected to go back to a round of meetings examining what the next attacks could be, what our vulnerabilities were. . . . Instead, I walked into a series of discussions about Iraq. At first I was incredulous that we were talking about something other than getting Al Qaeda. Then I realized with almost a sharp physical pain that Rumsfeld and Wolfowitz were going to try to take advantage of this national tragedy to promote their agenda about Iraq."
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Soon would come the now-famous encounter between Mr. Clarke and President Bush in the White House Situation Room. According to Mr. Clarke: "[The president] grabbed a few of us and closed the door to the conference room. `Look,' he told us, `I know you have a lot to do and all . . . but I want you, as soon as you can, to go back over everything, everything. See if Saddam did this. See if he's linked in any way.' "
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The president wanted war with Iraq, and ultimately he would have his war. The drumbeat for an invasion of Iraq in the aftermath of the Qaeda attack was as incessant as it was bizarre. Mr. Clarke told "60 Minutes" that an attack on Iraq under those circumstances was comparable to President Roosevelt, after Pearl Harbor, deciding to invade Mexico "instead of going to war with Japan."
The U.S. never pursued Al Qaeda with the focus, tenacity and resources it would expend — and continues to expend — on Iraq. The war against Iraq was sold the way a butcher would sell rotten meat — as something that was good for us. The administration and its apologists went out of their way to create the false impression that Saddam and Iraq were somehow involved in the Sept. 11 attacks, and that he was an imminent threat to the U.S.
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Richard Clarke has been consistently right on the facts, and the White House and its apologists consistently wrong. Which is why the White House is waging such a ferocious and unconscionable campaign of character assassination against Mr. Clarke.
Como democrata, acredito na democracia e nos representantes que ela elege. Não tenho qualquer dúvida sobre este princípio. Mas há outros princípios que nos obrigam a questionar sempre as verdades absolutas, sobretudo quando elas colidem com outras evidências ou sinais. A democracia é sem dúvida o melhor dos sistemas, mas ela é uma construção humana, e os seus intérpretes são humanos. Não são anjos nem demónios, mas a sua prática pode defini-los com maior clareza. E felizmente que em democracia só não se pode corrigir o que já se tornou irreversível.
O brutal e sanguinário acto terrorista nos comboios de Madrid, na semana passada, para além de nos recordarem a ameaça que paira sobre todo o mundo e para renovarmos a sua condenação incondicional e a determinação de activamente a combater, tiveram alguns desenvolvimentos posteriores que merecem a nossa reflexão.
1. Não há terrorismos bons ou maus, nem uns melhores que outros, por diferentes que sejam as suas motivações ou os seus modos de actuação. Do ponto de vista das vítimas de Madrid, e da segurança dos cidadãos espanhóis ou residentes em Espanha, é indiferente quem sejam os autores do atentado.
Mas acontece que ele ocorreu num período muito particular, o fim da campanha eleitoral para as Cortes, campanha imediatamente suspensa por (se não erro) todas as forças concorrentes. E é nesse momento que o governo e o Partido Popular que o sustentava se lançam num aproveitamento ignóbil da tragédia, afirmando peremptoriamente que o atentado havia sido obra da ETA, a hipótese que melhor o servia em termos eleitorais. Aznar telefona a directores de jornais afirmando isso mesmo. A ministra dos negócios estrangeiros, Ana Palacios, dá instruções ao seu corpo diplomático para passar para todo o mundo a mesma mensagem. A TVE, controlada pelo governo, em todos os serviços noticiosos se referia ao "atentado da ETA", como eu próprio pude comprovar durante quinta e sexta-feira. No sábado, o candidato do PP, Mariano Rajoy, é o primeiro a violar as disposições do período de reflexão afirmando em conferência de imprensa que tem a "profunda convicção moral" de que foi a ETA a executora, e a TVE altera a sua programação, substituindo o filme programado (Shakespeare in love) por um documentário sobre os atentados da ETA. Tudo isto quando os serviços de informações e segurança (obviamente com o conhecimento do governo) já dispunham de indícios que apontavam na direcção de fundamentalistas islâmicos.
Foi esse comportamento despudorado e oportunista que os eleitores castigaram e repudiaram nas urnas, dando a vitória ao PSOE.
2. Nas suas primeiras intervenções, o futuro primeiro-ministro espanhol, José Luís Zapatero, reafirma a condenação da guerra do Iraque e declara que as tropas espanholas aí presentes se retirarão, a menos que as Nações Unidas decidam até Junho o enquadramento da transição.
Esta proclamação, saudada por muita gente, foi por alguns considerada como uma capitulação ao terrorismo (aliás o mesmo foi dito relativamente ao sentido do voto espanhol), como se para os terroristas seja preferível ter no governo um partido e não outro. Voltou-se a proclamar alto e bom som a necessidade de o ocidente estar unido na luta contra o terrorismo, etc.
Ora estes "puros anti-terroristas" esquecem, ou fazem de conta que esquecem, a primeira afirmação de Zapatero: a de que a sua primeira e mais importante prioridade era precisamente a luta contra o terrorismo. Foi bem claro quanto a essa questão.
3. O grande equívoco que alguns querem continuar a alimentar é a identificação entre a luta contra o terrorismo e o apoio à guerra do Iraque. Hoje é claro para toda a gente que a guerra contra o Iraque não teve nada a ver com aquela que se esperaria fosse, também e sobretudo para os Estados Unidos, a prioridade das prioridades, a guerra ao terrorismo, antes teve a ver com outras agendas. Em termos de querra ao terrorismo, a aventura iraquiana, para além de ter sido um monumental embuste (não vale a pena repisar nas falsidades propaladas por governos democráticos e repetidas por inúmeros cães de guarda, na chantagem feita sobre outros países, no divisionismo da Europa para melhor reinar, no espezinhar da ONU), foi um enorme desperdício de tempo, recursos e vidas humanas, que não só não combateu o terrorismo, antes lhe abriu novos terrenos. Onde antes havia, sim, um regime despótico e sanguinário, de que ninguém tem saudades mas que, como se viu, de tão debilitado cairia a qualquer momento, coexistem hoje radicalismos, fundamentalismos, regionalismos, etc.
O que não se teria ganho se esses recursos todos tivessem de facto sido aplicados na luta contra os novos terrorismos, no desenvolvimento de serviços e sistemas de informações e segurança, na cooperação voluntária e na troca de informações, aplicando apenas o "hard-power" onde se pudesse atingir de facto os grupos terroristas?