abril 24, 2004

A subcontratação da guerra ou de novo os mercenários

É vulgarmente tido como adquirido que, a seguir aos 130.000 soldados americanos estacionados no Iraque, o segundo maior contingente militar é o britânico. Verdade? Não, ao contrário do que possa parecer. O segundo maior contingente no Iraque é constituído pelos 20.000 "seguranças" de companhias privadas.

O que primeiro chamou a atenção para este facto foi o terrível incidente, que se pôde observar em todas as televisões, da morte, mutilação e grotesca exibição e arrastamento dos corpos dos quatro seguranças americanos no mês passado em Falluja.

Segundo o New York Times (http://www.nytimes.com/2004/04/21/opinion/21WED2.html?th), a benévola designação de "seguranças" não descreve o verdadeiro papel destes homens armados, muitos deles ex-soldados de elite atraídos para a reforma por chorudos pagamentos. Eles não estão a guardar edifícios ou instalações petrolíferas. Entre outras coisas, esses "contratados" estão encarregados da segurança dos edifícios da autoridade de ocupação, em Bagdad, e mesmo do proconsul americano, Paul Bremer III. Participam igualmente no treino dos novos exército e polícia iraquianos.
Recentemente, segundo o mesmo jornal, empregados da Blackwater USA (a empresa a que pertenciam os 4 homens mortos em Falluja) travaram uma verdadeira batalha com milícias em Najaf, tendo mesmo podido chamar um helicóptero da companhia para suporte aéreo.

Segundo o NYT "...o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld tem procurado que o Pentágono procure meios de subcontratar e privatizar tarefas. Quando se trata da segurança fundamental e de tarefas de combate, é mal pensado. O Pentágono deveria recrutar e treinar mais soldados, ao invés de fomentar a criação de uma nova fornada de mercenários".

Publicado por acarranca em 10:39 AM | Comentários (0)

abril 23, 2004

Tempos Difíceis (II)

Volto ao artigo de João Bénard da Costa, desta vez para abordar os pontos 3. e 4.

A propósito da mágoa de uma amiga sua relativamente a um artigo escrito há um ano (em plena guerra do Iraque) em que se declarava mais próximo dos falcões do que das pombas, e angustiado por se sentir crescentemente afastado da sua família ideológica (estou a esquematizar um pouco, a questão interior de JBC é certamente mais complexa), reafirma a sua posição com a citação da parte do artigo em questão, que termina com a frase "Mas, enquanto me lembrar (...) desse 11 de Setembro, que essas mesmas pombas varreram da memória ou da razão, julgo que sou fiel aos fluxos que outrora recebi e transmiti, ao recusar-me qualquer pensamento, palavra ou obra que me aparte das vítimas desse inominável horror ou que me aproxime dos bárbaros que o cometeram, o pagaram, o apoiaram ou o compreenderam."
Desde essa altura, muita água e muito sangue correu pelo Eufrates. Não vale a pena fazer aqui o historial da ignomínia a que estados democráticos se dedicaram para justificar a guerra. Não, não me estou a esquecer que o regime de Saddam era incomensuravelmente mais ignominioso, e a sua queda é até agora o único aspecto positivo. Mas JBC incorre, na minha opinião, no maior dos equívocos desta guerra, hoje generalizadamente aceite, mesmo nos Estados Unidos: a guerra do Iraque não só não faz parte da guerra contra o terrorismo global tragicamente apresentado a 11 de Setembro de 2001, como constituiu (constitui) um grande desperdício de tempo, recursos e vidas que teriam muito melhor aplicação num combate decidido e mais eficaz a esse mesmo terrorismo, com um âmbito multilateral, não chantageando, dividindo e alienando os aliados naturais (os países democráticos) e incentivando o diálogo com as correntes moderadas e politicamente laicas dos países de maioria islâmica, organizando e investindo nos serviços de informações e segurança e na sua colaboração e troca de informações. Ou seja, o contrário do que foi feito, e continua a fazer, se bem que já com pequenas inflexões, mais ditadas pelas dificuldades criadas e por considerações eleitorais do que por assunção do erro.
O regime de Saddam era terrível, mas, pelos crimes do passado já tinha sido (e continuava a ser) punido, e nas vésperas da guerra já não estava em condições de ameaçar qualquer estado vizinho, estava enfraquecido e não era certamente a prioridade, face ao terrorismo global com o qual não tinha nada a ver. Resultado: hoje sim, o Iraque está assolado pelo terror e constitui uma boa base avançada dos grupos terroristas mais diversos; para além disso, com o desvio de recursos, os talibans voltaram a ter alguma preponderância no Afganistão.
Espanta-me é ter JBC caído no raciocínio dicotómico que Bush decretou, ao pensar que ser-se contra a guerra do Iraque nos "aparte das vítimas desse inominável horror ou que me aproxime dos bárbaros que o cometeram, o pagaram, o apoiaram ou o compreenderam. " Pelo contrário.

Publicado por acarranca em 06:04 PM | Comentários (0)

Tempos Difíceis (I)

As crónicas de João Bénard da Costa às sextas-feiras no Público são um prazer de que não me privo. Não se trata de concordar ou não com as premissas, os raciocínios ou as conclusões que nelas lemos, mas é sempre um prazer ler alguém que escreve com elegância, erudição e fina ironia, sem concessões a facilitismos. Viajamos as suas viagens, escutamos as conversas que relata, vemos as obras de arte que visita ou revisita, sejam elas pintura, escultura, música, dança, literatura ou cinema. E, embora com grandes intermitências, é um prazer que já tem décadas (vem de antes do 25 de Abril, que faz agora os seus trinta anos), e que por acaso começou pelo cinema, com política pelo meio. Mas essas são outras histórias.

A crónica de hoje intitula-se precisamente Tempos Difíceis, e tem cinco pontos. No primeiro auto-denuncia-se pelo roubo do título a uma crónica recente de António Barreto; como estou a cometer o mesmo delito, tomo a liberdade de o subscrever na íntegra. O quinto é uma referência pessoal onde leio uma excelente sugestão subliminar: voltar ao Museu de Arte Antiga para admirar o "Ecce Homo".

Mas o que me levou a comentar aqui o artigo foram sobretudo os pontos 2., 3. e 4. Tratam de questões distintas (não tanto os dois últimos), mas qualquer delas importante nos tempos (difíceis) que correm.

O ponto 2. trata da magna questão da "acessibilidade" do que se escreve do ponto de vista dos leitores potenciais. Leitores de JBC queixaram-se da dificuldade em compreender a sua escrita (mais especificamente, segundo me pareceu, ao artigo da semana passada, onde falava, citava e comentava as Inconferências de Harvard de e.e. cummings).

Não é uma questão menor, esta. Em princípio, qualquer autor quer-se fazer entender pelos seus leitores. Mas há assuntos e assuntos. Se há temas que podem ser abordados de uma forma mais "acessível" ao grande público, outros há que, mesmo numa perspectiva de divulgação, não conseguem evitar algum grau de complexidade.
Mas a questão não se resume à diferença dos temas abordados. Em primeiro lugar, a simplificação para efeitos pedagógicos ou de divulgação, por meritória que seja, constitui sempre um empobrecimento do tema abordado. Esse empobrecimento (assumido) pode ser maior ou menor, consoante os destinatários. Em segundo lugar, o autor, mesmo sem estar a fazer uma dissertação ou uma exibição da sua erudição, pode não querer abdicar do seu método e do seu estilo. E será que deve?

JBC dá a resposta voltando a e.e. cummings e a uma história anedótica (e estamos nos inícios da década de 50 do século passado) sobre as regras a respeitar na comunicação (no caso uma revista) por forma a satisfazer esse ente informe que se chama O Público. E mostra como essas regras se expandiram até abarcarem, hoje em dia, a quase totalidade dos meios de comunicação. E também como elas se ligam (causa ou efeito?) ao generalizado analfabetismo funcional, ou iliteracia. E independentemente dos argumentos a favor ou contra, reivindica o seu direito inalienável a, enquanto puder, continuar a escrever como gosta.

Não tenho a pretensão de compreender todas as referências, inferências, parábolas ou metáforas que emanam dos artigos de JBC (e também de outros autores, claro), mas encaro esse facto como um desafio a que procuro responder. Se não sei ou não compreendo, mas acho que me interessa, vou procurar (num livro, numa enciclopédia, na internet, ou a um amigo ou conhecido). Por exemplo, para quem acher que houve gralha do autor ou do jornal na grafia do nome de cummings, ficará sempre um pouco mais rico se investigar um pouco.

Publicado por acarranca em 06:01 PM | Comentários (0)

abril 04, 2004

Um teste ao respeito pelo direito internacional

"If the U.S. ignores this right to call your consul, why should the rest of the world honor it?"
David Sergi, advogado de um dos detidos

"The International Court of Justice does not have jurisdiction in Texas."
Rick Perry, que sucedeu a George W. Bush como Governador do Estado do Texas

O Tribunal Internacional de Haia decidiu que os tribunais americanos deviam proceder a uma revisão efectiva das setenças à pena de morte decretadas contra 51 cidadãos mexicanos (e, por extensão, a 120 outros estrangeiros em prisões americanas), por violação sistemática do seu direito a falarem com os seus representantes consulares. A Convenção de Viena sobre Relações Consulares de 1963 estatui que as pessoas detidas no estrangeiro têm o direito de falar com representantes dos seus governos, acentuando que os detidos devem ser informados deste direito, e os próprios EUA a invocam regularmente para visitar americanos em prisões estrangeiras.
Nos últimos cinco anos, o México foi o terceiro país a interpôr acções contra os EUA por violações da Convenção, depois da Alemanha e do Paraguai.
Na mesma decisão, o Tribunal Internacional rejeitou a pretensão do México de que as 51 condenações e setenças de morte fossem anuladas.

"Normalmente os Estados Unidos não dão muita importância às decisões do Tribunal Internacional, a não ser que lhes sejam favoráveis. Seria errado os Estados Unidos não acatarem esta decisão. Numa altura em que procuram aliados um pouco por todo o mundo, seria um tremendo erro."
Gabriel Guerra Castellanos, analista de política externa na Cidade do México

Para além do Texas, existem mexicanos no corredor da morte em oito outros estados: Arizona, Arkansas, California, Florida, Nevada, Ohio, Oklahoma e Oregon. A próxima execução está marcada para 18 de Maio no Oklahoma, de Osbaldo Torres.

Nota: dados e citações retirados de um artigo de Marlise Simons e Tim Weiner no New York Times de 1 de Abril http://www.nytimes.com/2004/04/01/international/europe/01COUR.html?pagewanted=1&th

Publicado por acarranca em 01:01 AM | Comentários (0)