A propósito de um post de hoje, de masson, no Almocreve das Petas, sobre a ineficiência e falta de fiabilidade crescentes dos Correios de Portugal, venho-me juntar ao coro de vozes indignadas.
Não foi assim há muito tempo que ainda se podia confiar no serviço dos CTT. Era um serviço público que prestava um serviço público. Depois veio a moda da empresarialização, confundida com a maximização do lucro e não com a melhoria da eficiência. E acabou-se a primazia de servir o público.
Sobretudo nos últimos meses o serviço tem-se degradado de uma forma alarmante, pelo menos na zona de Oeiras, mas, pelo que vou sabendo, na generalidade da àrea servida pelos CTT.
Cartas que não chegam ao destinatário (enviadas ou recebidas), contas que chegam depois da data limite de pagamento, cartas bem endereçadas que vão primeiro parar aos outros moradores do meu bairro, que depois prestimosamente mas põem na minha caixa (e vice-versa). A última passou-se no último mês: um pagamento por cheque a uma instituição, com registo e aviso de recepção; dois dias depois recebi o recibo da instituição; o aviso de recepção chegou mais de uma semana depois!
Será que os gestores dos CTT querem mesmo que a imagem da empresa se degrade assim tanto, que em vez de corrigirem as deficiências nos apresentam anúncios de carteiros eficientes e trabalhando em equipa para Euro 2004 ver nas televisões?
José Manuel Fernandes é apenas um de entre os muitos cronistas da nossa praça que não gosta que a esquerda se assuma como... bem, como esquerda.
JMF e outros gostam muito dos partidos e personalidades de esquerda, só se irritando com eles/elas quando tomam posições contrárias ao pensamento único neoliberal dominante na política nacional e internacional.
No seu editorial de hoje no Público manifesta a sua satisfação pelo aparecimento em catadupa de candidatos e pré-candidatos ao lugar de secretário-geral do PS, pois "isso abre um espaço de debate interno que o partido sente necessário mas que podia ser abafado pela euforia da retumbante vitória eleitoral".
Entenda-mo-nos: o aparecimento de candidatos a dirigentes do partido é um fenómeno salutar, nada há de pior para um partido, além do imobilismo, que o (falso) unanimismo, que na realidade apenas esconde, na maioria dos casos, o oportunismo da espera do momento ideal para o assalto ao poder.
A questão aqui é o momento em que surgem: precisamente a seguir à maior vitória eleitoral do PS e à maior derrota da direita. Por razões conhecidas, o PS não pôde festejar como gostaria essa vitória. Mas tal não implica que não a capitalize, nos meios de comunicação e no terreno, no período pós-eleitoral. O que o pode impedir? Claro que aquilo a que os media gostam de se agarrar: lutas internas, que substituem nas notícias as repercussões da vitória.
Os verdadeiros motivos do regozijo de JMF estão mais à frente: "Ferro conduziu o partido para a esquerda (no sentido tradicional da designação)" e "em domínios como a política externa, o protagonismo de Ana Gomes distanciou mesmo o partido do que foi a sua linha moderada de quase três décadas".
É isto que JMF e outros não perdoam, que perante a maior ofensiva neoliberal de que há memória em Portugal, protagonizada pelo governo de Durão Barroso, e perante a maior ofensiva das forças neoconservadoras, belicistas e unilaterais na cena internacional, prtagonizada pela administração Bush, haja quem diga que há alternativas, e que as alternativas escolhidas/impostas podem, em vez de resolverem problemas, agravá-los e torná-los quase incontroláveis. Como infelizmente se está a ver.
Eleições para o Parlamento Europeu:
- a maior vitória de sempre do PS, esmagando autenticamente (11 pontos percentuais de diferença!) a coligação de direita PPD/PSD/CDS/PP; o Ferro já merecia que alguma coisa de bom acontecesse, depois deste último ano aziago;
- a maior derrota de sempre da direita, que mesmo (sobretudo?) coligada ficou a ver navios e a inventar desculpas esfarrapadas; por tudo de mal que já fizeram e pelo que ainda pensam fazer, já o merreciam, e bem;
- enorme subida do BE, que é sem dúvida um dos grandes vencedores do dia; que a vitória não lhes suba à cabeça, que não se desleixem (como pareceu acontecer com alguns cartazes e descartáveis de campanha), que continuem a funcionar como suplemento imaginativo na cinzentice global dos nossos partidos, e que a estabilização e o amadurecimento se caracterizem por uma maior clareza do discurso e pela limpeza de alguns anacronismos residuais;
- o PCP aguentou-se bem; que isso seja acompanhado por uma maior abertura à renovação.
Em Espanha não houve (felizmente) nenhum atentado terrorista desde 11 de Março, o PSOE ganhou. Que argumentos invocarão os cronistas da nossa praça? De que tiveram medo desta vez os espanhois?
É já um lugar comum dizer-se que o PS não precisa de inimigos, pois ele próprio se encarrega de os segregar no seu seio.
Os acontecimentos de hoje na lota de Matosinhos, que antecederam a morte de Sousa Franco, são ilustrativos daquela afirmação: duas facções do PS no concelho de Matosinhos, mais os respectivos caciques, deram o triste espectáculo de se digladiarem e disputarem um braço do (na altura) cabeça de lista, procurando daí extraírem os melhores dividendos para a sua política local, fazendo tábua rasa de que se tratava de uma acção de campanha para o Parlamento Europeu.
Serão necessários mais exemplos para explicar as elevadas taxas de abstenção, não apenas nestas mas em todas as eleições, sempre em crescimento?
Nunca fui um admirador incondicional do Professor Sousa Franco, nem o conheci pessoalmente.
Mas mesmo assim sempre tive a ideia de que ele possuía de facto as qualidades humanas, cívicas e académicas que hoje todos, amigos e adversários políticos, lhe reconhecem. E não me parece, pelo menos na maioria dos casos, que se trate daquele hábito nefasto de, quando alguém morre, todos lhe reconhecerem as maiores qualidades.
Por outro lado, eu fui um dos que ficou agradavelmente espantado com o à vontade com que Sousa Franco participou numa campanha eleitoral, terreno onde nunca o havia visto e para o qual duvidava que tivesse a necessária "blindagem".
Talvez passado algum tempo após este dia se consiga discutir seriamente a sua herança nas finanças públicas após a sua última passagem pelo governo, o primeiro de António Guterres. Sem as patacoadas de pai do défice e outras que tais.
Ao voltar à Sanzala Global verifico que estive mais de um mês sem colocar qualquer post.
Foram razões várias, que não são para aqui chamadas, mas nenhuma delas tem a ver com falta de temas.
Por exemplo, o post anterior tinha a ver com a mercenarização da guerra, o que poderia parecer um qualificativo exagerado.
Mas um dos acontecimentos que marcou este período de ausência foi a publicização das fotos com os inqualificáveis actos de tortura praticados na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Era a prisão onde Saddam torturava os seus adversários ou os populares que não se mostrassem suficientemente submissos (era uma delas, pelo menos, ao que dizem a principal).
Mas eis que surgem as fotos, mostrando que os democratas e libertadores afinal também sabem fazer aquelas coisas, e com um sorriso nos lábios.
Muito já se falou sobre este assunto, pelo que apenas deixo umas notas.
A administração americana mostrou-se muito indignada, querendo passar para a opinião pública que se tratava de um caso isolado. Informações posteriores motram que, pelo contrário, se trata de um padrão, testado e praticado em Guantánamo, no Afganistão, e em outras prisões no Iraque. E ao que parece nos próprios EUA. Bush e Rumsfeld, nas toscas explicações que deram, não apenas não pediram desculpa como pareciam mais preocupados com as fotografias do que com os actos em si (a que chamaram abusos, e não tortura).
Os "bushistas" portugueses sempre de serviço vieram lembrar o Relatório das Sevícias dos tempos do PREC (afinal sempre se pode apresentar contra-exemplos...), e que a diferença das democracias era que estes casos eram investigados e julgados (serão? ou apenas os que se tornam incómodos com a revelação de fotografias e vídeos? no Senado americano foram mostradas muitas mais fotografias e vídeos - que deixaram alguns senadores altamente indispostos, pela sua crueldade e crueza-, e não há notícia de novos inquéritos e julgamentos; além de que para os prisioneiros mortos, torturados e humilhados isso não os deve confortar).
Para finalizar, o que liga este post ao anterior e velho de mais de um mês: alguns dos interrogadores/torturadores não são militares, nem da CIA ou dos serviços secretos, são privados, de companhias especializadas!!!
Nada como o mercado livre e desregulado...