outubro 30, 2004

Carlos Fuentes sobre Bush Jr.

Carlos Fuentes é um nome grande da cultura mexicana, latino-americana e mundial. Como intelectual atento ao seu tempo, de esquerda (não radical, como gosta de dizer), admirador da América e das suas contradições, não perdoa a George W. Bush a sua política desastrosa e perigosa, que conseguiu desbaratar o capital de simpatia mundial de que os EUA gozaram no imediato 11 de Setembro de 2001, rodeado de um gang de extremistas ultraliberais e neoconservadores (pode ser contraditório e no entanto é verdade) e crente de que é o próprio Deus que lhe mostra o caminho a seguir. Já este ano publicou um livro, Contra Bush, de que não conheço edição portuguesa, mas de que retirei este extracto, citado num artigo do Le Monde:

"Et si les citoyens des Etats-Unis eux-mêmes en arrivaient à ne plus voir dans l'actuelle administration nord-américaine qu'un simple "pétropouvoir", plus porté à protéger les intérêts économiques de compagnies représentées, de facto, par Bush et Cheney ?

Et si le Parti démocrate s'armait de courage politique et moral pour contrer la déplorable arrogance du gouvernement Bush et proposer un repositionnement moral et stratégique des Etats-Unis fondé sur un exercice prudent du pouvoir, une capacité de dialogue avec ses alliés et ses adversaires et le respect des règles du droit public international ?

Et si la cause psychologique de l'Apocalypse n'était autre que la vanité d'un enfant gâté qui n'est jamais allé à la guerre, qui a intégré l'université Yale avec des notes médiocres et d'énormes pistons, et qui a fini par dire à son géniteur : "Regarde, papa, moi j'ai été capable de faire ce que toi tu n'as pas eu le courage de faire !" Et si le premier empire hégémonique unipolaire depuis Rome n'écoutait pas, lui non plus, comme Rome ne l'a pas écoutée, la voix de la sagesse de l'Autre, le Grec de toujours : "L'hubris, l'orgueil démesuré, l'insolence lascive, perdent les hommes et les nations" ? Et si la situation, réellement, était "écrite en grec", en perdrions-nous notre latin ?"

Publicado por acarranca em 12:47 PM | Comentários (0)

outubro 29, 2004

Kerry, a bem de todos nós

Na próxima semana vão-se realizar as eleições para a presidência dos Estados Unidos.
Na minha opinião (e na de muitas pessoas em todo o mundo, e esperemos que também na dos próprios eleitores) é importante que o senador John F. Kerry seja eleito presidente dos EUA. Mais rigorosamente, é importante que George W. Bush não consiga um novo mandato (não digo que seja reeleito, pois como é sabido ele nunca foi eleito, foi designado pelo Supremo Tribunal depois das trapalhadas proporcionadas pelo abstruso sistema eleitoral americano).
Não escondo que Kerry não me entusiasma, mas quando comparado com a pobre e perigosa alternativa que Bush e os seus capangas representam, qualquer pessoa sensata só pode apoiá-lo. E espero que desta vez Ralph Nader não desvie votos do candidato democrata, como sucedeu com Gore há quatro anos. Não gosto de apelos ao voto útil, mas o que está em jogo neste momento é demasiado importante.
Os Estados Unidos, pela sua posição predominante no equilíbrio de poderes mundial, têm interesses próprios. Como qualquer país, claro, só que a prossecução desses interesses pode entrar, e entra muitas vezes, em colisão com os interesses da comunidade internacional, ou apenas de certos países dentro dessa comunidade. Isto é inevitável, e torna-se um problema grave quando um dos lados é a maior superpotência militar, económica e cultural. E é inevitável quer o presidente seja um democrata ou um republicano, e é responsável por muito do anti-americanismo que grassa um pouco por todo o mundo. Não tenho quaisquer dúvida que se Kerry fôr eleito, hei-de discordar de muitas das suas decisões (tal como quando voto em alguém para qualquer lugar em Portugal não o faço na convicção de que concordarei sempre com ela, seja quem fôr).
Mesmo assim, Kerry já deu provas de que a sua abordagem às grandes questões internacionais se encontra nos antípodas da de Bush. Pelo acho que vale a pena correr o risco da sua eleição, também por méritos próprios, e não apenas (o que já não seria pouco) para correr com o gang de Bush Jr,

Publicado por acarranca em 03:06 PM | Comentários (0)

outubro 22, 2004

Estamos seguros! Os nossos serviços de informação trabalham!

Leia-se no blog de Possidónio Cachapa como o próprio foi contactado por um jornal para comentar "um relatório que o SIS lhes forneceu" em que ele, Thomas Mann e André Gide (sic) são citados como autores que apresentam a pedofilia a uma luz favorável.
Se o tal relatório de facto existe (e só temos a palavra do dito jornal para o confirmar) é caso para nos sentirmos sossegados: os serviços de informações de segurança funcionam! Quem tem Cachapa, Mann e Gide debaixo de olho, há-de ter também outros personagens sinistros (não sei se Bin Laden e Al Zarquawi têm alguma obra publicada, mas se o fizerem já sabem que não o farão impunemente). Cachapa já está informado. Será que já pediram a quem tem o endereço de Machado de Assis se por acaso não sabe como contactar Mann e Gide, para os intimar?

Publicado por acarranca em 06:08 PM | Comentários (0)

outubro 19, 2004

A normalidade jardinista

A ler, Vicente Jorge Silva no Causa Nossa:

Em relação à Madeira vivemos uma espécie de sono da razão democrática. Só que é um sono cujo vírus contamina a consciência e a vivência da democracia em Portugal. Se aceitamos como normal ou até motivo de elogios (e imitação) o que se passa na Madeira, que impede que se pense o mesmo relativamente ao resto do país?

Publicado por acarranca em 05:39 PM | Comentários (1)

Pobre futebol

O que se passou neste fim de semana, antes, durante e após o desafio entre o Benfica e o FC Porto foi uma lastimável e confrangedora montra do estado do futebol português.

Quando as atenções se viram mais para o discurso (chamesmo-lhe assim) dos dirigentes dos clubes (ou das SAD) do que para o jogo propriamente dito, só quem andar distraído é que não vê que as coisas vão mal. Estes dirigentes, tal como grande parte dos elementos das claques, não gostam, não podem gostar, de futebol. Normalmente começam a falar após o rescaldo do último jogo, procurando desde logo condicionar ou influenciar o jogo seguinte. São as pressões sobre os árbitros, os ditos destinados a inflamar as claques, os pequenos jogos de bastidores (cedo-te/não te cedo os bilhetes a que, pelos regulamentos, tens direito, etc.) as piadas de mau gosto sobre os dirigentes adversários, por vezes chegando-se mesmo ao insulto pessoal ao visado ou seus familiares, as insinuações sobre uma vida empresarial menos limpa, tudo num tom abaixo de cão (para não falar no péssimo português).

Mas este jogo, infelizmente, não constituiu uma excepção. Antes a regra, sobretudo quando estão em jogo as chamadas equipas "grandes". E aí não há anjinhos ou virgens ofendidas: se em alguns casos o prémio da idiotice vai para os dirigentes de um dos lados em compita, na maioria dos casos verificam-se desonrosos empates.

Quanto ao jogo referido, se é nítido que uma das equipas foi prejudicada de forma escandalosa (por sinal a minha...), a reacção dos seus dirigentes foi a de se comportarem de tal modo que muita gente terá ficado com a ideia de que os prejudicados foram os outros. Salvaram-se os técnicos das duas equipas, que nas suas declarações após o jogo se limitaram a este, ignorando as poucas vergonhas que o rodearam.

Publicado por acarranca em 05:22 PM | Comentários (0)

outubro 13, 2004

Santana e a Comunicação

A Declaração ao País de PSL estava noticiada como sendo tempo de antena do governo, e, pelo que vi na programação dos órgãos de comunicação, estava marcada para depois das 21 horas, ou seja, após os jornais da noite.
Depois seguiu-se o vale-tudo, a autorização para ser transmitida antes (era uma Declaração ao País gravada). A SIC não se fez rogada e abriu o jornal da noite com ela. As outras estações, ao verem que mais uma vez tinham sido comidas por parvas, emitiram também dentro dos jornais a Declaração. E eis como um tempo de antena passa nos telejornais (já agora, sem contraditório...).

Tirando os aspectos formais (em que um político com fama de dominar os media consegue aparecer com um ar constrangido de coitadinho) a Declaração prometeu o pão e o mel para todos, contradizendo o que o Ministro das Finanças havia dito uns dias antes. E foi uma forma de o líder informar directamente o povo de algumas linhas do Orçamento de Estado para 2005, sem intermediários e marimbando-se para o órgão a quem ele deve ser presente e o único que o pode discutir e aprovar, a Assembleia da República. E também para o líder atirar pazadas de areia sobre o caso Marcelo e desafiar arrogantemente o PR.
Mas nada disto tem a ver com populismo, claro.

Já agora, e sobre o respeito de PSL sobre a liberdade de opinião dos que o criticam, ontem ouvi na TSF o director de um jornal da Figueira da Foz contar como foi processado pelo então Presidente da Câmara, de como o processo foi arquivado, e de como depois disso a Câmara da Figueira cortou toda a publicidade institucional no jornal e não lhe fornecia informações sobre as suas actividades, e de como pouco depois surgia uma inesperada oferta de compra da maioria do capital do jornal por um senhor de Lisboa que depois vem a saber tratar-se de José Braga Gonçalves, da Universidade Moderna, onde por sua vez PSL dava aulas e depois substituiu Paulo Portas como director do Centro de Sondagens, e etc que este parágrafo já vai enorme.
Não vi este assunto tratado em mais nenhum sítio, mas Pacheco Pereira veio lembrar no Abrupto este artigo do Público que vale a pena reler.

Publicado por acarranca em 12:17 PM | Comentários (0)

outubro 11, 2004

Faltam poucas horas!

É um país inteiro que aguarda impaciente a anunciada (com vários dias de antecedência, o que vem desmentir todos os que dizem que o Governo não planeia) Declaração ao País de S. Exa o Senhor Primeiro-Ministro. Dado o carácter intuitivo e imprevisível do orador, ninguém arrisca adivinhar o conteúdo da Declaração. Os analistas e comentadores que ainda sobram estão a trabalhar sobre uma miríade de cenários alternativos, para não serem apanhados desprevenidos. No entanto não escondem o desalento: "É uma tarefa vã e ingrata", disse um deles, que não se quiz identificar dado o actual clima de caça aos comentadores, "por mais cenários que desenhemos, ele apanha-nos sempre descalços".

Publicado por acarranca em 05:52 PM | Comentários (0)

Luís Delgado critica governo Santana!

Ou fui eu que percebi mal?

«A Santa Inquisição»
O que é que leva pessoas inteligentes, que merecem respeito, a perder a
cabeça, transformando-se em «copistas» da Santa Inquisição Mediática,
que condenam, criticam, e pronunciam veredictos antes de ver e perceber
a acção das pessoas?

Felizmente, o tempo, as escolhas e as decisões mostrarão o erro
primário, de censura prévia, em que incorreram.

Não era preciso ser brilhante, nem premonitório, para antecipar essa
luta política entre grupos que se degladiam ferozmente.

Por mim, estou tranquilo: não será agora que vou fazer o que nunca fiz
no DN, no DD ou na Lusa. Ponto final.

Publicado por acarranca em 02:55 PM | Comentários (0)

Ópera bufa

1. Um ministro de quem ninguém tinha ouvido falar, mas que teoricamente tem a pasta dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva de seu nome, desatou a invectivar o seu correligionário do PSD, e ex líder do partido, Marcelo Rebelo de Sousa, que até à semana passada, e durante quatro anos e meio, assegurava uma homilia dominical no jornal das 8 da TVI. O motivo imediato foi Marcelo ter criticado a tolerância de ponto concedida pelo governo para o dia 4 de Outubro, véspera do feriado da implantação da República, comparando esse acto do governo aos piores do último governo Guterres. Mas o ministro, que falava enquanto tal, acusou Marcelo de destilar um ódio ao Primeiro-Ministro superior ao que lhe devotariam (o ódio) o PS, o PCP e o BE em conjunto, e bramava contra a ausência de contraditório na dita homilia, invocando a actuação imediata da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
2. Marcelo, instado a responder, disse que o faria na homilia do domingo seguinte.
3. No dia seguinte, e após uma reunião de Marcelo com o patrão do grupo proprietário da TVI, vem-se a saber que tal homilia já não terá lugar. Marcelo remete-se ao silêncio, excepto para...
4. ...O Presidente da República, com quem tem uma audiência de cerca de hora e meia, mas da qual não transparece nada para fora dos muros do Palácio de Belém.
Não vale a pena voltar a esmiuçar os detalhes conhecidos desta sórdida história, com intervenções/desafios do Primeiro-Ministro, outras de desagrado e preocupação quer de cronistas quer de personagens públicas, algumas delas com importância no próprio PSD, como outro ex-Presidente e ex-Primeiro-Ministro, Cavaco Silva.

Realce-se:
1. Para o ministro desbocado e para quem o mandou fazer aquela figura triste, o antagonismo e a crítica política baseiam-se não em diferenças de opinião mas em ódios. Só isto diz imenso sobre quem detem o poder neste país.
2. Claro que o formato das homilias de Marcelo era excessivo, em termos de duração e do papel dos jornalistas de serviço, que actuavam como meros compéres. Claro que não tinha contraditório: esse papel deveria ser desempenhado por outros comentadores ou cronistas em outros órgãos de comunicação. Uma notícia deve ser cuidadosamente confirmada junto das partes nela referidas, um debate é contraditório por princípio, mas uma crónica de jornal (ou um comentário na televisão ou na rádio) só devem ter um contraditório externo (noutro comentário ou crónica), pois são a expressão de uma opinião pessoal, baseada numa análise pessoal, e com responsabilidade pessoal.
3. A censura nas democracias modernas não assume o mesmo aspecto da que conhecemos durante a ditadura. Pode ser auto-censura, mas pode também ser censura exercida pelo grupo ou grupos económicos que detêm a propriedade de um meio de comunicação. Não sabemos se terá sido esse o caso, embora a sequência de factos conhecidos para isso aponte. De qualquer modo chama a atenção para este problema, com grandes grupos económicos a deter fatias consideráveis dos media, e em alguns casos grupos económicos teoricamente privatizados mas em que o Estado continua a deter posições de refrência.
4. Para além da abjecção de tudo isto, eu fico com a impressão de que Marcelo já deu a volta por cima e está feliz da vida a preparar o próximo movimento. Apesar de ter dito que o silêncio era uma forma de resposta, não me parece que o silêncio o satisfaça. E o papel de vítima pode sempre ser proveitosamente utilizado por quem sabe.

Publicado por acarranca em 11:22 AM | Comentários (0)