The Doctrine That Never Died, por Tom Wolfe no NYT de hoje, sobre as origens do messianismo americano e a actualização da doutrina Monroe pelos vários presidentes e secretários de Estado, passando por Theodore Roosevelt até Bush Jr.
Termina assim:
For the mission - the messianic mission! - has never shrunk in the slightest ... which brings us back to the pretty preambles and the solemn rhetorical throat-clearing ... the parts always omitted from the textbooks as superfluous. "America's vital interests and our deepest beliefs are now one," President Bush said. He added, "From the day of our founding, we have proclaimed that every man and woman on this earth has rights, and dignity, and matchless value, because they bear the image of the maker of heaven and earth."
David Gelernter, the scientist and writer, argues that "Americanism" is a fundamentally religious notion shared by an incredibly varied population from every part of the globe and every conceivable background, all of whom feel that they have arrived, as Ronald Reagan put it, at a "shining city upon a hill." God knows how many of them just might agree with President Bush - and Theodore Roosevelt - that it is America's destiny and duty to bring that salvation to all mankind.
Não assisti à totalidade do debate entre Francisco Louçã e Paulo Portas na SIC Notícias. Mas do que vi, ambos se saíram bem dentro das ideias que defendem, e apesar do enfado (estudado e cínico) de Portas perante alguma agressividade verbal de Louçã, foi razoavelmente civilizado.
O que mais me chocou foi no entanto o inacreditável argumento utilizado por Louçã para afirmar que Portas não tinha o direito de falar sobre o aborto, por não ter filhos! Ignoro, e é totalmente irrelevante para mim, se Portas tem ou não filhos, primos sobrinhos ou o que quer que seja. O que eu sei (e espero que Louçã, homem inteligente e informado, também saiba) é que essa não é de modo nenhum uma situação de capitis deminutio para se falar sobre aquele ou qualquer outro assunto. E que essa lógica, levada às últimas consequências leva a que, por exemplo, os pais de famílias numerosas estejam na posição mais favorável para opinar sobre o assunto. Ou que eu não tenha direito de falar sobre os direitos das mulheres ou dos homossexuais, ou sobre quotas, ou sobre o Iraque (porque nunca lá estive).
Estou convencido que por estas horas Louçã terá reconhecido que meteu água e disse o que não queria dizer, devido ao cansaço ou à exaltação do debate. Espero que o venha a admitir publicamente. Para que não paire sobre ele (e o Bloco, e a esquerda) a suspeita de que aquele tipo de argumentação é típico.
Orlando Pattersom é um professor de sociologia da Universidade de Harvard, autor de "Freedom in the Making of Western Culture" , e de outro livro a saír brevemente sobre o sentido da liberdade nos Estados Unidos.
No New York Times de hoje assina um artigo intitulado The Speech Misheard Round the World, dedicado ao discurso de Bush Jr. na sua segunda tomada de posse, ontem realizada, e que já foi objecto do meu post anterior (descansem, Patterson é muito mais comedido que eu nas palavras, mas elas não pesam menos que as minhas - facilmente rotuladas de antiamericanismo primário, o que espero não aconteça com ele).
Recomenda-se a leitura, mas apresento aqui alguns extractos elucidativos:
Promoting freedom, of course, is a noble and highly desirable pursuit. If America were to make the global diffusion of freedom a central pillar of its foreign policy, it would be cause for joy. The way the present administration has gone about this task, however, is likely to have the opposite effect. Moreover, what the president means by freedom may get lost in translation to the rest of the world.
The administration's notion of freedom has been especially convenient, and its promotion of it especially cynical. In the first place, there is no evidence to support, and no good reason to believe, that Al Qaeda's attack on America was primarily motivated by a hatred of freedom. Osama bin Laden is clearly no lover of freedom, but this is an irrelevance. The attack on America was motivated by religious and cultural fanaticism.
Second, while it may be implicitly true that all terrorists are tyrants, it does not follow that all tyrants are terrorists. The United States, of all nations, should know this. Over the past century it has supported a succession of tyrannical states with murderous records of oppression against their own people, none of which were terrorist states - Argentina and Brazil under military rule, Augusto Pinochet's Chile, South Africa under apartheid, to list but a few. Today, one of America's closest allies in the fight against tyranny is tyrannical Pakistan, and one of its biggest trading partners is the authoritarian Communist regime of China.
Third, while the goal of promoting democracy is laudable, there is no evidence that free states are less likely to breed terrorists. Sadly, the very freedoms guaranteed under the rule of law are likely to shelter terrorists, especially within states making the transition from authoritarian to democratic rule. Transitional democratic states, like Russia today, are more violent than the authoritarian ones they replaced.
And even advanced democratic regimes have been known to breed terrorists, the best example being the United States itself. For more than half a century a terrorist organization, the Ku Klux Klan, flourished in this country. According to the F.B.I., three of every four terrorist acts in the United States from 1980 to 2000 were committed by Americans.
(...)
He claims that freedom must be chosen and defended by citizens, yet his administration is in the process of imposing democracy at the point of a gun in Iraq. At home, he seeks to "make our society more prosperous and just and equal," yet during his first term there has been a great redistribution of income from working people to the wealthy as well as declining real income and job security for many Americans. Furthermore, he has presided over the erosion of civil liberties stemming from the Patriot Act.
(...)
In the 20th century two versions of freedom emerged in America. The modern liberal version emphasizes civil liberties, political participation and social justice. It is the version formally extolled by the federal government, debated by philosophers and taught in schools; it still informs the American judicial system. And it is the version most treasured by foreigners who struggle for freedom in their own countries.
But most ordinary Americans view freedom in quite different terms. In their minds, freedom has been radically privatized. Its most striking feature is what is left out: politics, civic participation and the celebration of traditional rights, for instance. Freedom is largely a personal matter having to do with relations with others and success in the world.
Freedom, in this conception, means doing what one wants and getting one's way. It is measured in terms of one's independence and autonomy, on the one hand, and one's influence and power, on the other. It is experienced most powerfully in mobility - both socioeconomic and geographic.
(...)
The genius of President Bush is that he has acquired an exquisite grasp of this development in American political culture, and he can play both versions of freedom to his advantage. Because he so easily empathizes with the ordinary American's privatized view of freedom, the president was relatively immune from criticism that he disregarded more traditional measures of freedom like civil liberties. In the privatized conception of freedom that he and his followers share, the abuses of the Patriot Act play little or no part.
(...)
Yet while these inconsistencies may not bother the president's followers or harm his standing in America, they matter to the rest of the world. Few foreigners are even aware of America's hybrid conception of freedom, much less accepting of it. In most of the rest of the world, the president's inaugural address was heard merely as hypocrisy.
Imagine-se que quem escrevesse estas palavras era um comentador europeu? O que não lhe atirariam para cima os cães de guarda da pureza anglo-saxónica?
Bush Jr. tomou ontem posse para o seu segundo mandato. No seu discurso, fez afirmações que, lidas literalmente, são empolgantes e nos deveriam alegrar a todos. No entanto, dada a experiência e o conhecimento que já temos do personagem (e da sua corte), a utilização de fortes filtros torna-se necessária para descodificar a mensagem.
Por exemplo (retiro as citações do Público de hoje):
"A América, neste novo século, proclama a liberdade por todo o mundo e para todos os seus habitantes"
Fosse outro o estadista de qualquer outra nação a proclamar, isto não passaria sequer por uma piedosa e bem-intencionada declaração de intenções: seria imediatamente rotulada de arrogância pelos cães de guarda da comunicação. Mas não Bush.
A América é que proclama a liberdade para todo o mundo (e seus habitantes)? É "idealismo revolucionário", escreve com lágrimas nos olhos José Manuel Fernandes, talvez lágrimas idênticas às que lhe caíram quando saudou a "libertação" de Bagdade, comparando-a ao 25 de Abril (nada de mais semelhante!).
E já agora, qual o papel dos habitantes desse mundo, para o qual Bush Jr. proclamou a liberdade? Esperarem sentados, até que aviões que descolaram de aeroportos longínquos os comecem a bombardear, abrindo caminho para as tropas libertadoras? Ou ficarem mais preocupados, porque agora já nem se vai passar pela fase das campanhas mentirosas do tipo "armas de destruição maciça" e fingir que se negoceia na ONU quando as decisões já estão tomadas há muito?
Outra pérola:
"E todos os aliados dos EUA saberão: honramos a vossa amizade, confiamos no vosso conselho e dependemos da vossa ajuda"
Está visto que sim. Trata-se de uma autocrítica à política de intimidação e divisão do campo democrático que antecedeu a invasão do Iraque, de um reconhecimento de que de facto dependem da ajuda dos outros (o défice federal não pode esticar indefinidamente, e verfica-se uma forte retracção no voluntariado para as forças armadas, pelo que também há falta de carne para canhão)? Ou trata-se antes de mais do mesmo, indicando aos aliados que uns o são mais do que outros, consoante haja ou não uma submissão total às decisões de Washington?
Não vi citadas quaisquer declarações sobre a política de detenções expeditas e torturas sistemáticas (sim, política, definida ao mais alto nível e com pareceres favoráveis de consultores jurídicos - como o hoje Procurador-Geral, e eventual futuro membro do Supremo Tribunal - e não casos pontuais, como querem fazer crer os julgamentos dos e das brutamontes que só lá estão porque foram suficientemente burros para ficar na fotografia).
As proclamações de liberdade, democracia e respeito pelas leis deveriam começar por casa.
O dossier do Libération sobre o horror concentracionário dos campos nazis, 60 anos depois. Muito completo, com artigos sobre as políticas de extermínio, os campos, testemunhos de judeus e ciganos, e links para os principais sites dedicados à tragédia.
Le jour où il n'y aura plus de journalistes à Bagdad, Donald Rumsfeld, le secrétaire américain à la Défense, et le représentant d'Al-Qaeda en Irak, Abou Moussab al-Zarkaoui, seront les principales sources d'information. (Serge July, director do Liberation, num artigo sobre a necessidade da presença de jornalistas no local, a propósito do desaparecimento (eventualmente por rapto) a 5 de Janeiro da sua repórter Florence Aubenas e do seu acompanhante guia-intérprete Hussein Hanoun al-Saadi).

Falta exactamente um mês para as eleições legislativas antecipadas, e o panorama actual ainda não é muito motivador.
Dos partidos (com algumas excepções, nomeadamente do Bloco de Esquerda) ainda não se conhecem programas coerentes e estruturados sobre o que pretendem fazer caso venham a ter condições para governar, ou o que pretendem fazer na AR. Apenas se vão ouvindo algumas notícias soltas sobre baixar ou não os impostos, e quais, e a quem, sobre a retoma de uma solução para os resíduos industriais perigosos, sobre o aborto, tudo muito interessante, mas que só pode/deve ser avaliado pelos cidadãos no quadro mais abrangente de um programa de governo (com este ou outro nome) que dê a coerência possível a propostas de âmbito diverso, e que sobretudo esclareça sobre as grandes linhas mestras de um projecto governativo. Quais os objectivos prioritários e como os atingir, com que recursos, com que orientação.
De curioso, até aqui, só o comportamento dos dois partidos da actual coligação governamental.
Com as trapalhadas criadas por Santana Lopes e sua corte, Paulo Portas, esperto como um alho, faz valer o seu "bom" comportamento enquanto parceiro de coligação que não causou ondas e que "fez obra", procurando assim ganhar espaço de manobra e eleitores ao seu actual/potencial parceiro de governo. Claro que não fala do Ministério da Justiça de Celeste Cardona, nem dos ziguezagues a que o seu independente de serviço Bagão Felix foi e tem sido obrigado nos últimos meses relativamente não apenas ao OE de 2005, mas igualmente à maquilhagem do défice de 2004.
Quanto a Santana Lopes, será coerência ou uma pulsão incontrolável, mas continua igual a si mesmo, isto é sempre imprevisível e errático, debitando da boca para fora o que lhe vem à cabeça quando qualquer aragem que lhe afague o gel muda de direcção.
Quantas vezes já repetiu que o adversário não é o Presidente da República, para logo a seguir passar longos minutos a perorar, não sobre o futuro, mas sobre a "impostura" da dissolução? Perde-se a conta. Constante tem sido igualmente na sua vitimização, desde a incubadora em que toda a gente dava pontapés, passando pelo cartaz em que modestamente se incluía entre os que mais fizeram por Portugal, e por Cavaco que não autorizou a sua imagem em tal companhia, e pelos outros dirigentes e quadros do PSD (perdão, PPD/PSD) que não lhe atendem o telefone, ao facto de o PP agora ser um modelo de virtudes, etc, etc, tem sido um rosário de fazer chorar as pedras da calçada. Ultimamente passou às acusações contra o adversário principal (Sócrates) mas mais uma vez teve azar com os conselheiros, estes enganaram-no, e o alto funcionário que foi chefe de gabinete de Sócrates e depois nomeado para um lugar de topo no Ambiente, não o foi por Sócrates, como Santana disse em comício, mas por Izaltino de Morais, já no governo PSD/PP de Durão Barroso.
A última pedra foi atirada hoje no Forum da TSF por Pires de Lima, do PP, ao admitir que o défice estrutural se situa nos 5%. E Santana que já havia decretado o fim da austeridade!
Segundo acabo de ouvir, a contagem actual das vítimas do tsunami que se seguiu ao sismo de 26 de Dezembro no Índico já vai em 226.000 mortos, mais de metade dos quais na Indonésia, mais concretamente na região de Aceh, no norte da ilha de Sumatra.
Esta tragédia registou um movimento de solidariedade sem precedentes, com numerosos países ou ONGs a enviarem fundos e pessoal especializado para os países afectados. Essa "primeira vaga" da solidariedade tem funcionado bem, pelo que nos é contado nos órgãos de comunicação. Bizarro é que essas primeiras ajudas se tenham deparado com dificuldades, sobretudo burocráticas, por parte de alguns dos países afectados (veja-se a demora que a AMI enfrentou para poder desalfandegar o material no aeroporto de Colombo). Outra dificuldade reside nas zonas onde se verificam (há décadas) conflitos armados, como no norte do Sri Lanka, e precisamente no Aceh, onde apesar de os beligerantes terem declarado cessar-fogos temporários, estes nem sempre terem sido respeitados.
A segunda vaga da solidariedade é constituída pelos fundos que os vários governos declararam colocar à disposição dos países atingidos para os apoiar na reconstrução, que atinge somas astronómicas. É esta vaga que exige a maior vigilância da comunidade internacional, para que não se repita o que já se verificou em anteriores calamidades, em que as generosas promessas foram seguidas de silenciosos esquecimentos. Só agora se soube que das quantias postas à disposição do Irão na sequência do sismo que destruiu a cidade histórica de Baan (quase exactamente um ano antes), apenas foram recebidos cerca de 17 milhões de dólares.
Para além disso, é preciso instituir mecanismos de vigilância e aviso, como o que funciona no Oceano Pacífico. E talvez não apenas no Índico. E com comunicações eficientes, com interlocutores reconhecidos e disponíveis. Várias estações da zona do Pacífico detectaram a possibilidade do tsunami, mas não sabiam a quem comunicar esses dados nos países potencialmente/efectivamente atingidos. Como exemplo, Diego Garcia fica no meio do Índico, só que existe lá uma base dos Estados Unidos. Ninguém morreu em Diego Garcia como resultado do tsunami.
Estou a escrever este post no tempo decidido pela União Europeia para que os seus cidadãos cumpram três minutos de silêncio em memória das vítimas da tragédia que se abateu sobre o Oceano Índico a 26 de Dezembro.
A enormidade do acontecimento justifica esta homenagem. Para lembrarmos as vítimas (cuja contagem não pára de aumentar) e para meditarmos na nossa pequenês perante as forças da natureza. Como nos parecem ridículas e mesquinhas certas coisas com que nos preocupamos no dia a dia e que enchem o nosso espaço mediático, quando as forças telúricas soltam o seu poder devastador, face ao qual ou não podemos nada ou podemos muito pouco.
A tragédia gerou em todo o mundo um vasto movimento de solidariedade e ajuda, através de ONGs, governos, indivíduos e organizações internacionais. Para além das equipas de apoio no terreno, reuniu-se uma soma recorde de dinheiro para ajudar à reconstrução das zonas devastadas. Que se espera seja criteriosamente aplicado. E que não aconteça o que aconteceu com a tragédia de Baan, no Irão, há um ano, que gerou igualmente um grande movimento de apoio, promessas de dinheiro, etc., e depois caiu no esquecimento, e ao que parece apenas uma pequena fracção do dinheiro prometido chegou a ser mobilizado.